O cessar-fogo declarado unilateralmente pelo presidente russo Vladimir Putin para os dias 8 e 9 de maio, em celebração ao Dia da Vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, não resistiu ao prazo simbolicamente escolhido para vigorá-lo. Relatos de correspondentes internacionais no front e comunicados dos estados-maiores das duas forças reportam retomada dos confrontos artilhados e dos ataques com drones ao longo de toda a linha de contato no leste e no sul da Ucrânia a partir do início da madrugada de sábado, 10 de maio, menos de 24 horas após o início formal da trégua. O desfecho confirma o padrão que cada cessação temporária das hostilidades neste conflito tem reproduzido com monótona regularidade desde fevereiro de 2022: a guerra para de fazer barulho por horas ou dias, e depois recomeça exatamente onde havia parado.
A Rússia, fiel à sua hermenêutica do conflito, culpou imediatamente a Ucrânia pelo fim prematuro do cessar-fogo, afirmando que forças ucranianas realizaram “tentativas de infiltração tática” em múltiplos setores durante a madrugada de sexta-feira, em violação da trégua, e que as Forças Armadas russas responderam de forma “proporcional e defensiva”. A Ucrânia, por sua vez, negou ter violado o cessar-fogo e apresentou evidências de que as forças russas haviam mantido operações de reconhecimento com drones durante as primeiras horas da trégua, conduta que Kyiv interpretou como preparação para ataques imediatos após o encerramento do período de cessação. A impossibilidade de atribuição independente e verificável das responsabilidades pela ruptura é uma das características definitórias deste conflito, no qual a guerra da narrativa é travada com a mesma intensidade que a guerra nas trincheiras.
Para a Ucrânia, o Dia da Vitória russo é um símbolo carregado de significados que vão além da comemoração histórica. A narrativa russa de que a “operação especial” na Ucrânia é uma continuação da luta contra o nazismo, e de que as forças ucranianas são “neonazistas” a serem “desnazificadas”, é politicamente repugnante para os ucranianos, que têm sua própria e legítima memória da Segunda Guerra Mundial: a Ucrânia perdeu entre 5 e 7 milhões de pessoas no conflito, incluindo os combatentes do Exército Vermelho que lutaram ao lado dos soviéticos e as vítimas do Holodomor. O uso que Putin faz da memória da guerra como legitimador da agressão presente não é apenas uma distorção histórica: é, na percepção ucraniana, uma profanação das mesmas vítimas cujo sacrifício ele afirma honrar.
O estado das negociações de paz permanece em um limbo que, após mais de quatro anos de guerra, não surpreende mais ninguém, mas que continua sendo tragicamente inaceitável. A mediação americana, cuja intensidade oscilou ao longo do segundo mandato Trump entre momentos de engajamento ativo e períodos de desinteresse manifesto, encontra agora um obstáculo estrutural: as condições de paz que os EUA apresentam como razoáveis para a Ucrânia, que incluem cessar-fogo sem retirada russa dos territórios ocupados, são politicamente inaceitáveis para o governo de Zelensky e para a sociedade ucraniana. As condições que a Ucrânia considera mínimas para uma paz justa, retirada russa de todos os territórios ucranianos e garantias de segurança vinculantes, são inaceitáveis para o Kremlin.
A guerra na Ucrânia entra, nesta semana, em seu quinto ano de existência com um bilhão de dólares por semana de custo humano e material, com uma linha de frente relativamente estabilizada mas continuamente sangrenta, e com uma diplomacia internacional que acumulou mais reuniões, mais comunicados e mais missões especiais do que qualquer outro conflito do século XXI sem conseguir aproximar as partes de um acordo que, em algum momento, precisará acontecer, porque as guerras terminam, sempre, de uma forma ou de outra. A questão é se terminará pela negociação ou pela exaustão, e a resposta a essa pergunta não depende de cúpulas diplomáticas ou de declarações de cessar-fogo: depende de se algum dos dois lados chegar antes ao limite do que pode suportar.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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