Médica Veterinária faz um alerta grave: a hemoterapia veterinária no estado de São Paulo está sendo alvo de práticas irresponsáveis que colocam vidas em risco. Com o aumento da demanda por transfusões, cresce também um cenário alarmante, sangue sendo coletado de qualquer animal, sem rastreio sanitário, sem exames adequados e sem qualquer controle mínimo de segurança.
Um ponto que exige atenção urgente é o uso de felinos como doadores. A procura por sangue de gatos é alta, mas a disponibilidade é extremamente limitada. Isso ocorre porque muitos responsáveis não autorizam a doação, já que, em condições adequadas, os felinos precisam ser sedados para o procedimento, o que gera preocupação e resistência. Essa escassez tem levado a práticas ainda mais preocupantes e antiéticas.
O que deveria ser um procedimento rigorosamente técnico está, em muitos casos, sendo tratado com negligência. Animais em estado de vulnerabilidade, frequentemente resgatados e encaminhados a abrigos, estão sendo usados como doadores, sem avaliação clínica adequada, sem histórico sanitário e sem garantia de saúde. Ou seja, animais que deveriam ser acolhidos e cuidados acabam sendo explorados, “vampirizados” para suprir uma demanda crescente e descontrolada. Isso eleva drasticamente o risco de transmissão de doenças infecciosas, muitas vezes sem cura e até morte.
O manual de boas práticas da Associação Brasileira de Hematologia e Medicina Transfusional Veterinária (ABVHMT) é claro ao estabelecer critérios rigorosos em todas as etapas da escolha do doador à transfusão. No entanto, esses parâmetros vêm sendo ignorados em práticas irregulares já identificadas no estado de São Paulo.
A médica-veterinária, Helenita Ciscon, não minimiza a gravidade: “Sem protocolo, sem controle e sem rastreio sanitário, a hemoterapia deixa de salvar e passa a ameaçar vidas. O que estamos vendo é extremamente preocupante.”
A situação se agrava com técnicas de coleta inadequadas, realizadas muitas vezes em ambientes impróprios e, na maioria das vezes, insalubres, sem estrutura e sem profissionais devidamente capacitados. Além disso, o transporte do sangue frequentemente ocorre fora das regulamentações, comprometendo ainda mais a segurança do procedimento.
Além de comprometer a qualidade do sangue, esses procedimentos não deveriam causar sofrimento quando realizados corretamente, com o animal devidamente contido e dentro dos protocolos. O sofrimento só ocorre quando não é feito de forma adequada, o que amplia os riscos clínicos.
Outro ponto crítico é a ausência de supervisão de um médico-veterinário responsável técnico, uma exigência básica que, quando ignorada, escancara um cenário de total falta de controle e responsabilidade. Para os especialistas, o problema é direto: há falhas graves de fiscalização e práticas que beiram a irresponsabilidade sanitária. “O responsável precisa entender que isso não é um detalhe. É uma ameaça concreta. Optar por serviços sem critério pode custar a vida do animal”, alerta Helenita.
A hemoterapia veterinária é, sim, um recurso vital, mas apenas quando realizada conforme o manual de boas práticas. Fora disso, o que se vê não é medicina: é risco, negligência e um problema sanitário sério que precisa ser enfrentado com urgência.


