Por Temístocles Telmo Ferreira Araújo
Não escrevemos livros para decorar estantes. Escrevemos para salvar vidas. Foi com esse propósito que nasceu a obra Lei Maria da Penha em Rede: Proteção Social, Direitos e Ação (2026), escrita para transformar a lei em ferramenta cotidiana de prevenção, acolhimento e proteção das mulheres.
Os números explicam a urgência. Em 2025, 27,6 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência física, psicológica ou sexual praticada por parceiro íntimo. No mesmo período, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o equivalente a quatro mulheres mortas por dia, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Em oito de cada dez casos, o crime foi cometido pelo companheiro ou ex-companheiro. O perigo, quase sempre, está dentro de casa.
O feminicídio, porém, não nasce do nada. Ele é o último ato de uma escalada previsível, que pode ser interrompida. Para tornar essa escalada visível, utilizamos o violentômetro, uma ferramenta pedagógica simples e poderosa.
No estágio de alerta, surgem críticas constantes, ciúmes excessivos, controle de redes sociais, humilhações e isolamento. Não é “normal”. O que fazer: conversar com alguém de confiança, buscar orientação pelo 180 e nomear o abuso. Informação precoce salva.
No estágio de perigo, aparecem empurrões, ameaças, destruição de objetos, controle financeiro e perseguição. O que fazer: registrar ocorrência, pedir medida protetiva de urgência, acionar a rede de apoio e, em caso de risco imediato, ligar 190.
No estágio de risco de morte, há espancamento, uso de armas, estupro e ameaças de feminicídio. O que fazer: ligar imediatamente 190, sair do local de risco, buscar abrigo seguro e exigir fiscalização efetiva da medida protetiva.
A Lei Maria da Penha só funciona plenamente quando atua em rede: polícia, justiça, saúde, assistência social, educação e sociedade civil. Quando a rede falha, a violência vence. Quando funciona, vidas são preservadas.
Escrevemos este livro porque conhecimento parado não protege ninguém. Reconhecer os sinais, agir cedo e fortalecer a rede é o que separa estatística de vida salva.
Colunista Temístocles Telmo:
Doutor e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. Pós-Graduado lato senso em Direito Penal . Coronel veterano da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Com 40 anos de experiência de atuação na Segurança Pública. Professor de Direito Criminal na PUC-Assunção. Advogado e membro da Comissão de Segurança Pública da 100ª Subseção do Ipiranga da OAB São Paulo. Em 2023, coordenou os Conselhos Comunitários de Segurança da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e foi Secretário de Segurança de Santo André (2024-2025). É autor, coautor e organizador de 18 livros, com destaque para Vizinhança Solidária. Além de escritor e articulista, também se dedica à poesia.

