

Durante duas décadas, a página de resultados de busca, conhecida como SERP, foi o principal campo de disputa por atenção na internet. Empresas investiram em SEO para aparecer entre os primeiros links, veículos estruturaram redações orientadas a palavras-chave e o tráfego orgânico se consolidou como ativo estratégico. Esse modelo, no entanto, começa a perder centralidade diante da ascensão de sistemas de inteligência artificial generativa.
Com a popularização de assistentes baseados em grandes modelos de linguagem, como ChatGPT, Gemini e Perplexity, o comportamento de busca passa por uma transição relevante. Em vez de percorrer listas de links, o usuário recebe respostas diretas, sintetizadas e contextualizadas. A navegação deixa de ser exploratória e passa a ser mediada por interpretação algorítmica.
Essa mudança altera profundamente a dinâmica de descoberta digital. A pergunta já não é apenas “como ranquear melhor”, mas “como ser compreendido e citado pelos sistemas que geram a resposta”. A visibilidade deixa de depender exclusivamente da posição na SERP e passa a depender da consistência pública da marca no ecossistema informacional que alimenta esses modelos.
Do ponto de vista estratégico, isso representa uma inflexão estrutural. A lógica tradicional de SEO priorizava cliques. A nova lógica prioriza compreensão semântica, autoridade e recorrência editorial. Empresas que dependem apenas de tráfego de busca enfrentam um cenário no qual parte das consultas não resulta mais em visita ao site, mas em consumo direto da resposta.
Para Isadora Reis, fundadora e CEO da PulseBrand, o jogo mudou. “Antes a disputa era por clique. Agora é por entendimento. A inteligência artificial reúne o que já está publicado sobre a sua marca e transforma isso em resposta. Se a sua presença pública é fraca ou inconsistente, a IA também vai refletir isso.”
Essa transformação também afeta o papel do jornalismo e das publicações especializadas. Conteúdos editoriais deixam de ser apenas destino final de leitura e passam a funcionar como infraestrutura de dados para modelos de IA. Reportagens, análises e citações se tornam insumos para respostas automatizadas, ampliando a relevância de fontes confiáveis.
No campo corporativo, o impacto é duplo. De um lado, empresas precisam adaptar suas estratégias de SEO para um cenário de busca generativa, investindo em conteúdo autoritativo e presença editorial qualificada. De outro, gestores passam a considerar como a marca é interpretada por sistemas que influenciam decisões iniciais de consumo e contratação.
A transição não elimina os mecanismos de busca tradicionais, mas reduz sua centralidade como único ponto de entrada. A SERP deixa de ser o centro absoluto da descoberta digital e passa a coexistir com respostas diretas mediadas por inteligência artificial. Nesse ambiente, visibilidade não se resume a aparecer, mas a ser corretamente compreendido.
Para o mercado, a implicação é clara: estratégias digitais precisam evoluir da lógica de ranqueamento para a lógica de reputação estruturada. À medida que a IA se consolida como camada intermediária entre pergunta e decisão, a construção de autoridade pública passa a ser parte integrante da infraestrutura de presença digital das empresas.

