

A inflação na Argentina voltou a acelerar em janeiro e atingiu 2,9% no mês, reforçando a tendência de alta que vem marcando a segunda metade da gestão de Javier Milei e reacendendo o debate sobre a consistência do processo de desinflação no país vizinho. No acumulado de 12 meses, o índice de preços ao consumidor chegou a 32,4%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), num movimento que frustra expectativas de mercado e coloca pressão adicional sobre a política econômica.
Um dado acima das expectativas
O avanço de 2,9% em janeiro representa aceleração em relação a dezembro, quando a inflação havia sido de 2,8%, e ficou acima das projeções de analistas, que esperavam algo entre 2,4% e 2,5%. Trata-se do quinto mês consecutivo em que o índice mensal supera a marca de 2% e do terceiro mês seguido de alta da taxa anual, que vinha em trajetória de queda até meados de 2025.
Dados compilados por plataformas financeiras mostram que a inflação mensal argentina, embora bem abaixo dos picos de 25,5% registrados em dezembro de 2023, segue acima da média histórica recente de 3,8% desde 2014, o que indica um patamar ainda elevado para um país que tenta reconstruir credibilidade monetária. Em 2025, a inflação fechou em 31,5%, o menor nível em oito anos, mas com repique evidente no segundo semestre.
Alimentos e serviços na dianteira
O relatório oficial do Indec e leituras paralelas de consultorias convergem ao apontar o segmento de alimentos e bebidas não alcoólicas como grande vilão de janeiro, com alta de 4,7% no mês, pressionado sobretudo por carnes e hortaliças. Restaurantes e hotéis também tiveram avanço expressivo, de 4,1%, refletindo custos maiores de mão de obra, insumos e a demanda sazonal do verão.
Na outra ponta, educação teve variação mais contida, de 0,6%, enquanto vestuário e calçados registraram queda média de 0,5%, ajudando a suavizar, ainda que marginalmente, o índice geral. Quando se decompõe o indicador por categorias, os preços sazonais sobem 5,7%, o núcleo de inflação avança 2,6% e os preços regulados, relacionados a tarifas públicas e serviços administrados, sobem 2,4%.
A leitura fina mostra ainda uma leve diferença entre bens e serviços: bens sobem 2,8% e serviços, 3,1%, evidenciando que a inflação ligada a consumo de serviços, mais inercial e sensível ao mercado de trabalho, segue resistente.
Crise no órgão de estatísticas e questionamentos
O dado de janeiro foi divulgado em meio a forte turbulência institucional no Indec. Dias antes da publicação, Marco Lavagna renunciou ao comando do instituto, após divergências com o governo Milei sobre o momento de implantação de uma nova metodologia do índice de preços. A mudança, prevista para entrar em vigor exatamente neste mês, previa atualização da cesta de consumo, com maior peso de serviços e utilidades em relação a bens, o que poderia alterar a leitura da inflação.
O governo decidiu adiar a revisão metodológica, sob o argumento de que a mudança deveria ocorrer somente depois de consolidado o processo de desinflação, movimento que gerou críticas de opositores e de parte da comunidade técnica, preocupados com eventual interferência política nas estatísticas. A controvérsia reforça a atenção internacional sobre a qualidade dos dados argentinos, historicamente marcada por episódios de manipulação em governos anteriores.
Reação do governo Milei
O ministro da Economia, Luis Caputo, atribuiu o número de janeiro a um contexto de “rearranjo de preços relativos” poucos meses após forte contração na demanda por moeda, mantendo o discurso de que a tendência estrutural é de queda da inflação. Segundo ele, o programa econômico continua ancorado em três pilares: equilíbrio fiscal, controle rigoroso da base monetária e recapitalização do Banco Central.
Pesquisas de expectativas do próprio Banco Central argentino indicavam, antes da divulgação, uma projeção de inflação de 2,4% para o mês, o que mostra surpresa negativa em relação ao consenso. Ainda assim, o levantamento REM aponta previsão de 22,4% de inflação acumulada em 2026, sinalizando confiança de parte do mercado em desaceleração mais adiante, embora relatórios independentes questionem esse otimismo diante da persistência de choques em alimentos e tarifas.
Perspectivas e desafios
Analistas internacionais ressaltam que, embora o quadro atual esteja distante da hiperinflação recente, a sequência de meses acima de 2% e o repique da taxa anual acendem alertas sobre a capacidade do governo de ancorar expectativas sem sacrificar ainda mais a atividade econômica. A vulnerabilidade social, com perda de poder de compra e aumento de pobreza, torna politicamente delicada qualquer nova rodada de ajustes em tarifas e câmbio, fatores que ainda podem pressionar preços.
Relatórios de casas de análise apontam que, no curto prazo, a inflação deve permanecer em torno de 2% a 3% ao mês, com alguma moderação possível a partir do segundo trimestre, caso o aperto fiscal se mantenha e a demanda siga fraca. No médio prazo, porém, a sustentabilidade da trajetória depende da capacidade do governo Milei de aprovar reformas estruturais e preservar a independência das instituições estatísticas, sem as quais qualquer dado de inflação perde credibilidade aos olhos de investidores e da própria sociedade argentina.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

