

Um conflito no Estreito de Taiwan teria um efeito devastador sobre a economia mundial, com perdas estimadas em 10,6 trilhões de dólares no primeiro ano de guerra aberta entre China e Estados Unidos, o equivalente a cerca de 9,6% do PIB global. A simulação, elaborada por economistas da Bloomberg, projeta um choque mais profundo que o provocado pela pandemia de Covid-19, pela crise financeira de 2008 e pelo atual conflito na Ucrânia, consolidando o cenário como o mais grave risco geoeconômico da década.
Um choque econômico sem precedentes
O modelo da Bloomberg Economics examina cinco trajetórias possíveis para o aumento de tensões no Estreito de Taiwan, indo de uma escalada diplomática controlada até uma guerra total envolvendo diretamente Pequim e Washington. No cenário extremo, com confronto militar aberto, sanções abrangentes e interrupção quase completa das rotas comerciais na região, a perda estimada de 10,6 trilhões de dólares em um ano ultrapassa qualquer choque recente em magnitude e velocidade.
Segundo o estudo, a contração global de cerca de 9,6% do PIB superaria a queda de 3,1% registrada em 2020 com a Covid-19 e os 5,9% da crise financeira de 2009, redesenhando fluxos de comércio, cadeias produtivas e sistemas financeiros. A diferença central está na concentração, em uma única região, de elementos hoje vitais à economia digital, da manufatura de alto valor às rotas marítimas por onde passam quase 90% dos grandes porta-contêineres do planeta.
Semicondutores no epicentro do risco
O coração do problema é o papel de Taiwan como verdadeiro “hub” global de semicondutores. A ilha concentra a maior parte da produção mundial de chips avançados, especialmente por meio da TSMC, empresa que abastece gigantes da tecnologia, da indústria automotiva, de equipamentos médicos e de defesa. Estima-se que 5,6% de todo o valor adicionado no mundo, algo em torno de 6 trilhões de dólares, venha de setores diretamente dependentes de microchips.
Os 20 maiores clientes da TSMC, sozinhos, somam valor de mercado de aproximadamente 7,4 trilhões de dólares, evidenciando o volume de riqueza atrelado à estabilidade de Taiwan. Qualquer interrupção prolongada da produção ou bloqueio logístico teria efeito cascata: fábricas paradas, escassez de eletrônicos, atrasos na indústria automobilística e encarecimento de produtos de consumo em escala planetária.
Bloqueio, invasão e cenários modelados
A Bloomberg trabalha com dois grandes tipos de cenários: um bloqueio naval e aéreo imposto pela China, que excluiria Taiwan do comércio mundial, e uma invasão em larga escala, com participação militar direta dos EUA e de aliados como Japão e Austrália.
No cenário de bloqueio “apenas”, a previsão é de queda de 12,2% do PIB de Taiwan no primeiro ano, contra contração de até 8,9% na China, 3,3% nos Estados Unidos e 5% na economia global. Mesmo sem guerra total, apenas o fechamento parcial do Estreito e a reconfiguração de rotas comerciais já implicariam aumento de prêmios de seguro, custos de frete, inflação e instabilidade financeira.
Em caso de conflito aberto, o quadro se agrava: Taiwan poderia ver seu PIB despencar 40% em doze meses, com destruição física de infraestrutura industrial e civil ao longo da costa. A China, alvo provável de sanções coordenadas pelo G7, correria o risco de queda de até 16,7% do PIB, enquanto os EUA sofreriam impacto estimado em 6,7%, com recessão profunda e colapso de cadeias produtivas dependentes de chips. Países próximos, como Coreia do Sul e Japão, poderiam enfrentar contrações de 23,3% e 13,5%, respectivamente, dada sua alta integração tecnológica e geográfica.
Sanções, bloqueios e efeito dominó no comércio
Estudos de think tanks e organismos internacionais convergem para a percepção de que uma crise em Taiwan seria, na prática, também uma crise na China, tamanha a interdependência comercial e financeira entre Pequim e o restante do mundo. Apenas um bloqueio, sem guerra declarada, já é calculado por consultorias como o Rhodium Group e por analistas europeus como causa de perdas superiores a 2 trilhões de dólares; a Bloomberg fala em até 5 trilhões só nessa hipótese.
A isso se somariam sanções lideradas por EUA e G7, capazes de restringir fluxos comerciais e bancários da segunda maior economia do planeta, com estimativas adicionais de até 3 trilhões de dólares em perdas se o sistema financeiro chinês fosse alvo de medidas máximas. Na soma de um bloqueio severo, guerra localizada e sanções amplas, o custo converge para a cifra de 10 a 10,6 trilhões de dólares, ponto em que os modelos de diferentes equipes de pesquisa se encontram.
Alerta a investidores e governos
A perspectiva de um choque dessa magnitude já entrou de vez no radar de investidores, planejadores militares e governos. Especialistas ouvidos pela Bloomberg relatam que o tema aparece em “95% das conversas” com grandes multinacionais desde a invasão russa da Ucrânia, levando empresas a redesenhar cadeias de suprimentos, buscar alternativas a Taiwan e diversificar estoques de componentes críticos.
Relatório do Federal Reserve de St. Louis reforça que um conflito desse tipo desencadearia fuga para ativos seguros, disrupções severas no comércio, pressões sobre bancos e explosão de gastos fiscais, com impactos mais graves que qualquer conflito recente envolvendo os EUA. Ao mesmo tempo, análises do International Crisis Group e de centros europeus sublinham que mesmo cenários “limitados”, como bloqueios ou exercícios militares agressivos, já trariam perdas de trilhões e exigiriam preparação prévia da União Europeia e de outras regiões.
Risco altíssimo como freio à guerra
O cálculo de um custo de 10,6 trilhões de dólares funciona, paradoxalmente, como um dos principais argumentos para evitar que as tensões no Estreito de Taiwan descambem para o confronto direto. Ao quantificar a devastação econômica potencial, os modelos reforçam a lógica de dissuasão mútua: qualquer lado que escolha o caminho da guerra arrastará consigo, e contra si próprio, uma crise de proporções históricas.
Nessa equação delicada, Taiwan permanece sobre uma linha de falha geopolítica e econômica, vital à inteligência artificial, à indústria e à segurança global, enquanto China e Estados Unidos equilibram ambições estratégicas e o peso incomensurável de um conflito que poderia custar, em um único ano, mais do que a soma dos grandes choques globais do século XXI.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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