

Uma pesquisa recente conduzida em um hospital de referência na Coreia do Sul comparou dois grandes sistemas de critérios para identificar a síndrome pós‑Covid, também conhecida como Covid longa nos adultos: o índice PASC (Post‑Acute Sequelae of SARS‑CoV‑2 infection) e os critérios da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM). O estudo, publicado em 2026, traz novos elementos para a discussão sobre quais parâmetros são mais adequados para rastrear e monitorar essa condição crônica, que ainda carece de consenso unificado em termos de definição e diagnóstico clínico.
Contexto da Covid longa nos adultos
Desde o início da pandemia de Covid‑19, ficou evidente que uma parcela significativa de pessoas segue com sintomas persistentes além das quatro semanas iniciais de infecção. Esses quadros, que incluem fadiga extrema, dispneia, dificuldade de concentração, dor torácica e alterações neurológicas e autonômicas, passaram a ser agrupados sob designações como Long Covid, síndrome pós‑Covid ou sequelas pós‑agudas de SARS‑CoV‑2. A heterogeneidade clínica e a falta de marcadores biológicos claros tornam o diagnóstico mais complexo, o que explica a proliferação de diferentes critérios por instituições e consórcios internacionais.
A literatura médica recente tem destacado que, mesmo em adultos que tiveram quadro inicial leve, aparece um contingente relevante de sequelas funcionais, com impacto em trabalho, atividades diárias e qualidade de vida. Estudos populacionais estimam que proporcionalmente entre 10% e quase 40% dos infectados desenvolvam algum tipo de quadro pós‑agudo, dependendo da definição utilizada e da população estudada. Nesse cenário, mecanismos como o índice PASC e os critérios NASEM surgem como tentativas de padronizar a identificação de pacientes com maior necessidade de atenção especializada.
Como funcionam o índice PASC e os critérios NASEM
O índice PASC, desenvolvido a partir de grandes coortes de indivíduos contaminados por SARS‑CoV‑2, baseia‑se em uma escala quantitativa de sintomas. Nele, cada sintoma relevante é pontuado de acordo com sua intensidade e frequência, e um corte definido é aplicado para classificar alguém como “positivo” para sequelas pós‑agudas. A ideia é gerar um limiar mais rígido, com maior especificidade, o que tende a reduzir diagnósticos falso‑positivos, embora possa subestimar alguns casos com sintomas mais discretos ou menos padronizados.
Por outro lado, os critérios NASEM, lançados em 2024 pela Academy of Sciences, Engineering, and Medicine, adotam um viés mais amplo e inclusivo. Segundo esses critérios, um paciente pode ser considerado dentro do espectro de Long Covid se apresentar ao menos um sintoma persistente por três meses ou mais após a infecção, desde que o quadro não seja explicado melhor por outra doença. A definição prioriza a sensibilidade, ou seja, a capacidade de captar o maior número possível de pessoas reais, mesmo que o preço seja um eventual aumento de falsos positivos.
Comparação empírica entre PASC e NASEM
O estudo coreano acompanhado 183 adultos com diagnóstico confirmado de Covid‑19, em um hospital terciário, com avaliações padronizadas aos 1, 3, 6 e 12 meses após a infecção. Ao final de doze meses, 26,2% dos participantes (48 indivíduos) atingiram o limiar do índice PASC, enquanto quase metade da coorte, 47,5% (87 pessoas), preencheu os critérios NASEM. Importante nota: cerca de 91,7% dos que se enquadraram no PASC também estavam contemplados pelos critérios NASEM, o que indica que o NASEM consegue, na prática, abranger a maioria dos quadros mais claramente sintomáticos, além de incluir outros com sintomas mais difusos ou menos intensos.
A discrepância entre as prevalências sugere que o índice PASC opera como um filtro mais seletivo, exigindo um padrão sintomático mais robusto para classificar alguém como portador de sequela pós‑aguda, enquanto o NASEM funciona como um leque mais amplo, sensível a experiências variadas de sintomas persistentes. Para pesquisadores que buscam trabalhar com grupos claramente delimitados, o PASC pode ser preferível; para sistemas de saúde que desejam garantir acesso a cuidados a qualquer pessoa com quadro prolongado, mesmo sem perfil sintomático “clássico”, o NASEM oferece uma base mais inclusiva.
Implicações clínicas e políticas de saúde
A escolha entre um critério ou outro não é apenas técnica: ela tem consequências diretas para a alocação de recursos, a criação de protocolos assistenciais e o acesso das pessoas a serviços de reabilitação e acompanhamento. Um sistema mais amplo, como o NASEM, favorece políticas de atenção ampla, mas exige que redes de saúde sejam capazes de lidar com um volume maior de pacientes em busca de ajuda, muitos com sintomas ainda mal compreendidos. Já definições mais rígidas, como o PASC, podem tornar mais fácil a seleção de coortes para ensaios clínicos, porém arriscam deixar fora indivíduos com sofrimento real, mas que não atingem o ponto de corte.
Autores que discutem a implementação desses critérios na prática recomendam que, em pesquisa, pesquisadores escolham a definição conforme o objetivo do estudo, enquanto, no contexto clínico, a atenção deve se voltar para a escuta atenta do paciente, a avaliação funcional e a investigação de causas alternativas antes de fechar qualquer diagnóstico. Ainda que nenhum critério seja perfeito, a convergência entre PASC e NASEM em grande parte dos casos reforça a existência de um núcleo comum de quadros pós‑Covid que não podem ser ignorados pelo sistema de saúde.
Em um cenário em que a Covid longa continua a pressionar serviços médicos e seguradoras, este tipo de comparação metodológica contribui para alinhar a linguagem científica com as necessidades reais de quem vive com sintomas persistentes, equilibrando rigor metodológico e sensibilidade clínica.

