Um cessar-fogo firmado às pressas, sob ameaça de uma ofensiva avassaladora e de um possível massacre, colocou fim a mais de uma década de autonomia curda no norte e nordeste da Síria, redesenhando o mapa político do país e forçando os líderes curdos a recuar para dentro das estruturas do Estado central. Para evitar que cidades como Raqqa, Hasakah e Qamishli se tornassem palco de retaliações sangrentas, a liderança das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês) aceitou um acordo que transfere à Damasco o controle administrativo e militar de amplas áreas, entrega campos de petróleo e fronteiras e reduz a autoadministração curda à condição de mera participação local no aparato estatal sírio.

Do auge da autonomia ao colapso político

Desde 2012, os curdos sírios, organizados em torno da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (DAANES), haviam construído uma experiência inédita de autogoverno, com milícias locais, parlamentos regionais e um modelo federativo de inspiração confederalista. Amparados pelo apoio militar dos Estados Unidos na luta contra o grupo Estado Islâmico (EI), consolidaram o controle sobre vastas áreas a leste do rio Eufrates, incluindo importantes campos petrolíferos em Deir ez-Zor e zonas agrícolas estratégicas.

Essa arquitetura política, vista por Ancara como extensão do PKK e encarada com desconfiança por Damasco, sempre esteve sob pressão de vizinhos e potências regionais. Ainda assim, resistiu a ofensivas turcas e a rearranjos diplomáticos até que, em janeiro de 2026, uma súbita combinação de levantes árabes locais, avanço de forças ligadas ao governo sírio e fadiga internacional do apoio ocidental precipitou o colapso da experiência autônoma em grande parte de seu território.

O cessar-fogo que custou a autonomia

Com a rápida perda de controle sobre o vale oriental do Eufrates, a saída de unidades árabes da SDF e a ameaça de ataques em centros urbanos curdos, a liderança militar, comandada por Mazlum Abdi, viu-se diante de um dilema extremo: arriscar uma guerra de extermínio ou aceitar um cessar-fogo que, na prática, significava rendição política. O acordo negociado com representantes do governo de transição em Damasco previu a retirada de todas as formações militares curdas para leste do Eufrates, a entrega imediata das províncias de Raqqa e Deir ez-Zor à administração central e a integração de todas as instituições civis da província de Hasakah às estruturas governamentais sírias.

Pelos termos do cessar-fogo, Damasco assume o controle de todas as passagens de fronteira e de todos os campos de petróleo e gás da região, pilares econômicos da autonomia curda. As SDF deixam de existir como comando unificado e seus combatentes passam a ser absorvidos, individualmente, pelas forças armadas e órgãos de segurança do Estado, perdendo capacidade de decisão própria. Em troca, o governo central acena com a nomeação de um governador de origem curda para Hasakah e a preservação de uma força policial local em cidades simbólicas como Kobane, subordinada ao Ministério do Interior.

A ameaça de massacre como pano de fundo

O acordo foi, em grande medida, assinado sob o eco de uma ameaça explícita: a de que a continuidade da resistência curda poderia desencadear represálias em larga escala contra civis, em regiões onde tribos árabes armadas, algumas com histórico de colaboração com o EI, avançavam rapidamente. Relatos de excessos, saques e ataques a bairros curdos após a queda de Raqqa reforçaram o temor de que um confronto prolongado se transformasse em limpeza étnica.

Analistas ouvidos por centros de pesquisa e veículos internacionais apontam que a liderança da DAANES e da SDF optou por “perder de caneta o que poderia perder em sangue”, sacrificando o projeto de autogoverno para preservar vidas e buscar, dentro do Estado sírio, algum espaço de negociação futura. O dilema foi agravado pelo fato de que a nova liderança em Damasco, saída de um processo de transição contestado, busca recentralizar o país e não esconde a intenção de reduzir ao mínimo qualquer forma de federalismo.

Sentimento de traição e incerteza

Entre moradores curdos de cidades como Qamishli, o clima predominante é de desolação e sentimento de abandono. Muitos veem no desfecho a confirmação de uma longa história de promessas não cumpridas por potências estrangeiras, que apoiaram as forças curdas enquanto eram essenciais no combate ao EI, mas recuaram quando o tabuleiro geopolítico exigiu reaproximação com Ancara e Damasco.

Especialistas, como o pesquisador Kamaran Palani, alertam que a ausência de garantias claras de autonomia local pode empurrar os curdos para dois cenários igualmente perigosos: a supressão violenta de sua vida política ou a perpetuação de um ciclo de conflitos e securitização que mantém a questão curda em permanente ebulição. A curto prazo, o cessar-fogo afasta a perspectiva de massacre imediato; a médio e longo prazo, abre uma fase de incerteza sobre como se dará a participação curda em um Estado sírio reconfigurado.

Fim de um capítulo, início de outra luta

Com a autonomia formalmente desmontada, o desafio dos curdos sírios passa a ser a construção de espaços de representação dentro de instituições estatais historicamente hostis às suas demandas identitárias e culturais. A possível indicação de figuras como Mazlum Abdi para cargos de alto escalão, incluindo o governo de Hasakah, pode oferecer alguma margem de influência, mas está longe de equivaler à experiência de autogoverno construída ao longo de mais de uma década.

Para além das fronteiras sírias, o desfecho repercute entre curdos da Turquia, do Iraque e do Irã, que acompanham com apreensão o esvaziamento de um dos mais ambiciosos projetos políticos curdos contemporâneos. A narrativa que emerge, entre ressentimento e pragmatismo, é a de um povo que, para evitar o massacre, teve de recuar de uma autonomia conquistada a duras penas, e que agora se vê obrigado a reinventar suas estratégias de luta dentro de um Estado que sempre tentou contê-lo.

Marcelo Henrique de Carvalho – editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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