
A confirmação de que Simone Tebet deixará o Ministério do Planejamento e Orçamento até 30 de março abriu uma nova frente de discussão no Palácio do Planalto: a possibilidade de fusão de pastas na área econômica e de gestão, em um movimento que mira, ao mesmo tempo, reorganizar a Esplanada e ajustar o tabuleiro político para as eleições de 2026. Lula passou a ser pressionado por aliados a aproveitar a saída da ministra para redesenhar estruturas, reduzindo superposição de funções e acomodando novas forças partidárias em menos cadeiras ministeriais, sem perder governabilidade.
Saída anunciada e conversas com Lula
Simone Tebet afirmou publicamente, em evento em São Paulo, que deixará a pasta até o dia 30 de março para disputar um cargo nas eleições de outubro, muito provavelmente uma vaga no Senado, após conversa direta com Lula sobre seu futuro político. A ministra disse que seu destino eleitoral “está nas mãos do presidente” e que terá uma conversa definitiva com ele antes do Carnaval, quando Lula pretende bater o martelo sobre seu papel no projeto político da coalizão governista.
Embora Tebet não tenha cravado o cargo nem o estado, ela admite que será “candidata a alguma coisa” e que não permanecerá no ministério, mencionando as hipóteses de concorrer pelo Mato Grosso do Sul, sua base original, ou por São Paulo, estado estratégico para o governo federal. Em paralelo, Lula sinaliza que considera importante sua participação no pleito, enxergando na ex-candidata presidencial uma peça relevante para ampliar a frente de centro que o apoia.
Fusão de ministérios entra no radar
Com a saída praticamente certa, assessores políticos e interlocutores no Congresso relatam que ganhou força no entorno de Lula a ideia de promover uma reestruturação mais ampla da Esplanada, contemplando a fusão de pastas hoje separadas, sobretudo na área de planejamento, gestão e articulação com o Orçamento. A avaliação, presente em análises de bastidores, é que a divisão entre Planejamento e Orçamento, Fazenda e Gestão ainda gera sobreposição de agendas, dispersão de equipes técnicas e dificuldades adicionais de coordenação interna.
Sob esse prisma, o Planalto poderia testar um modelo mais enxuto, unificando Planejamento com outra pasta afim, como Gestão ou até parte das atribuições de Orçamento, aproveitando a vacância deixada por Tebet para evitar um “efeito cadeira giratória” com múltiplas nomeações. A medida permitiria, ainda, abrir espaço para negociações políticas com partidos que pleiteiam mais protagonismo, sem inflar o número de ministérios, tema sensível diante da opinião pública.
Cálculo político para 2026
A reforma ministerial que se desenha é vista por analistas como peça de um rearranjo maior visando 2026, quando o governo Lula buscará consolidar uma base mais ampla no Congresso e fortalecer palanques estaduais estratégicos. O MDB, partido de Tebet, já ocupa cargos relevantes como Transportes e Cidades, e a saída da ministra tende a exigir compensações políticas, seja na forma de manutenção de influência sobre a pasta resultante da fusão, seja por meio de apoio explícito a sua candidatura.
Dentro do PT e de legendas aliadas, a leitura é de que a presença de Tebet em uma disputa ao Senado reforça a narrativa de frente democrática mais plural, especialmente se ela concorrer em São Paulo, onde o governo cogita lançar nomes como Fernando Haddad ou Geraldo Alckmin ao governo estadual. Essa engenharia eleitoral, contudo, passa pela forma como Lula redesenhará o núcleo econômico do governo, sinalizando continuidade ou ajuste de rota na condução da política fiscal e de investimentos.
Reações na Esplanada e no Congresso
Nos corredores da Esplanada, a possibilidade de fusão de ministérios provoca apreensão em equipes técnicas, que temem perda de autonomia e reacomodação de cargos estratégicos, ao mesmo tempo em que parlamentares enxergam na mudança uma oportunidade de renegociar espaços. Bancadas de partidos de centro, como MDB e PSD, já vinham manifestando insatisfação com o peso relativo de suas pastas e pressionam por uma redistribuição que reflita melhor sua importância nas votações do Congresso.
Para além da matemática política, há quem alerte para o risco de enfraquecimento do papel de planejamento de longo prazo caso a pasta seja subsumida por uma visão predominantemente fiscalista ou operacional. A experiência recente de governos anteriores, que alternaram modelos com mais ou menos ministérios, serve de referência para um debate em que eficiência administrativa e acomodações partidárias caminham lado a lado.
Entre a técnica e a política
Lula, que se notabilizou por equilibrar técnica e política na montagem de seus governos anteriores, volta a se ver diante desse dilema. De um lado, há o argumento de que a fusão de ministérios com funções correlatas pode enxugar a máquina, melhorar coordenação e responder a críticas sobre excesso de cargos. De outro, existe o cálculo de que cada cadeira ministerial é um instrumento de poder e barganha, cuja redução exige habilidade redobrada na costura com os partidos da base.
Enquanto Simone Tebet prepara sua saída e projeta o próximo passo na carreira eleitoral, o Palácio do Planalto se move para transformar uma mudança pessoal em oportunidade de reorganização estrutural. A decisão final sobre fundir ou não ministérios, e sobre quem herdará o espaço hoje ocupado pelo Planejamento, dirá muito sobre como Lula pretende atravessar a metade final de seu mandato e qual formato de governo levará ao embate político de 2026.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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