Por Adriana Ramalho

O avanço tecnológico transformou a forma como adolescentes se relacionam, aprendem e se informam. No entanto, especialistas alertam para um efeito colateral crescente: o impacto do uso excessivo de telas na saúde mental de jovens, associado ao aumento de casos de depressão, transtornos de ansiedade e até comportamentos suicidas.

Dados recentes mostram a dimensão do fenômeno. No Brasil, 95% dos jovens entre 9 e 17 anos estão conectados à internet, e mais da metade já possui celular próprio . Esse acesso precoce e intenso tem sido acompanhado por mudanças preocupantes. Estudos apontam que o uso prolongado de telas está associado ao aumento de ansiedade, depressão, autolesão e suicídio entre adolescentes, especialmente entre meninas.

Além disso, o tempo excessivo diante de dispositivos digitais pode afetar diretamente o sono, a cognição e as relações sociais. Pesquisas indicam que jovens que passam mais tempo conectados tendem a apresentar mais sintomas depressivos e menor interação presencial, elemento essencial para o desenvolvimento emocional. Outro dado alarmante revela que, pela primeira vez, os registros de ansiedade entre crianças e adolescentes já superam os de adultos no país.

Nesse cenário, cresce também a preocupação com fenômenos como a “nomofobia” — a ansiedade causada pela falta do celular — e o aumento do cyberbullying, que amplia o sofrimento psíquico e o isolamento social.

O debate precisa ir além da demonização da tecnologia. Políticas públicas integradas que envolvam educação digital, apoio psicológico e orientação familiar são necessárias. O problema não é apenas o acesso, mas a forma como esse acesso ocorre, sem mediação e sem limites.

A muito tempo atuando em pautas voltadas à infância e juventude, reforço a necessidade de ação conjunta entre poder público e sociedade. O aumento dos transtornos mentais entre adolescentes exige respostas urgentes, com investimento em saúde mental nas escolas e campanhas de conscientização sobre o uso responsável da tecnologia.

Uma das medidas mais debatidas recentemente é a restrição do uso de celulares nas escolas. No Brasil, a Lei nº 15.100/2025 passou a limitar o uso desses dispositivos no ambiente escolar. Um ano após a implementação, 80% dos estudantes relatam melhora no foco em sala de aula, além da redução do bullying virtual .

Apesar dos avanços, especialistas ponderam que a proibição isolada não resolve o problema. Estudos internacionais indicam que apenas restringir o uso dentro da escola não garante melhora significativa na saúde mental, já que o tempo de exposição fora do ambiente escolar continua elevado .

O desafio, portanto, é mais amplo. Envolve equilibrar o uso da tecnologia com práticas saudáveis, fortalecer vínculos sociais e ampliar o acesso a suporte psicológico. Em meio a uma geração hiperconectada, a questão central deixa de ser apenas “quanto tempo de tela” e passa a ser “como e para quê” essas telas são utilizadas.

A adolescência contemporânea se constrói entre conexões digitais e fragilidades emocionais. E, diante desse cenário, o papel da sociedade é garantir que a tecnologia seja uma ponte, e não um abismo, para o desenvolvimento saudável das novas gerações.

Adriana Ramalho – Bacharel em Direito, política (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante sobre combate a violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino, e saúde mental.

Fotos: Freepik 

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