COP17: portuguesa lança estratégia para salvar fungos

Petra+Werner Eimann Kaarst Alemanha Os fungos desempenham um papel essencial na preservação da biodiversidade

Muitas formas de vida que existem no planeta Terra dependem de seres que, embora estejam por toda parte, são frequentemente esquecidos: os fungos. Sem eles, milhões de plantas e animais não sobreviveriam. 

Sob a liderança da bióloga portuguesa Cátia Canteiro, um grupo de cientistas de mais de 30 países se uniu para dar aos fungos a importância que eles merecem nas estratégias de proteção da biodiversidade. 

Sustentação da vida na terra e na água

O grupo elaborou a primeira Estratégia Global de Conservação dos Fungos. O documento será lançado neste 21 de outubro, durante a 17ª Conferência da ONU sobre Biodiversidade, que decorre em Yerevan, na Armênia, até 30 de outubro.

Em entrevista para a ONU News, de Londres, a caminho da COP17, Cátia Canteiro explicou a importância desses organismos para a saúde do planeta e o bem-estar dos seres humanos. 

“Os fungos ajudam na composição de nutrientes e fazem voltar o ciclo do solo, renovar a matéria orgânica e voltar a dar nutrientes ao solo. Eles ajudam com a estabilização do solo, e com a estrutura do solo. O mesmo na água. Tem fungos decompositores na água que fornecem alimento aos peixes e outros animais. Os fungos estão em todo o lado. Quando a gente começa a ver nas nossas vidas o nosso café, o pão. O fermento do pão é um fungo, que faz esse papel. Então eles estão mesmo em todo o lado”. 

Papel-chave na contenção de carbono

Os fungos micorrízicos, por exemplo, formam vastas redes subterrâneas que transportam nutrientes e água para 90% das plantas do mundo. Em contrapartida, as plantas fornecem carbono aos fungos, sendo que grande parte desse carbono é armazenada no solo em vez de ser liberada na atmosfera.

A especialista conta que esta é uma enorme contribuição dos fungos no “sequestro de carbono”, que ajuda a conter o avanço da crise climática. 

Esses organismos também ajudam as plantas a se adaptarem a condições de seca, em meio ao aquecimento global cada vez mais intenso. 

Cátia Canteiro/Arquivo pessoal
A bióloga portuguesa Catia Canteiro lidera a Estratégia Global para a Conservação de Fungos.

Uma luta para integração dos fungos

A bióloga acredita que a Estratégia que está sendo lançada vai suprir uma lacuna importante, pois muitas leis e políticas voltadas para a proteção de plantas e animais raramente se aplicam aos fungos.

“Nós queremos que haja uma integração. Nós não queremos que se desenvolva novas metodologias, novos indicadores, novas coisas para os fungos. Nós realmente queremos a integração, integrar os fungos nos mecanismos que já existem. Eu acho que isso é realmente essencial”.

Cátia Canteiro disse que o resultado esperado é a expansão de pesquisas, pois menos de 10% das espécies de fungos em todo o mundo foram sequer descritas pela ciência, mas também a ação imediata de governos na proteção de espécies ameaçadas.

Um levantamento da União Internacional pela Conservação da Natureza, Iucn, indica que 30% dos fungos avaliados para risco de extinção estão sob ameaça. 

A pesquisadora portuguesa disse que, tal como animais e plantas, os fungos sofrem com a perda de habitat causada pela poluição e pelas mudanças climáticas. 

Cogumelos para fins medicinais e recreativos

Ela também comentou o interesse crescente no uso de cogumelos para fins medicinais e recreativos, afirmando que esta “moda” traz uma visibilidade positiva, mas cria o risco da extração excessiva.

“Então a moda como tem, é bom porque as pessoas finalmente estão a começar a pensar em fungos. Mas temos que ter muito cuidado na maneira como nós os usamos, principalmente quando este movimento é coleta de espécies”. 

A bióloga ressaltou que na África do Sul, por exemplo, várias populações de fungos desapareceram por causa da coleta insustentável para uso recreativo. Ela defendeu regulações claras que definam o que pode ser coletado e como deve ser feito o uso sustentável.

Shaneya Miriyagalla
fungos encontrados durante uma única tarde em Wisconsin

Brasil, o resgate de fungos ameaçados

A pesquisadora também mencionou exemplos positivos de conservação, inclusive no Brasil, onde foi criada uma coleção de fungos ameaçados, semelhante a um banco de sementes. 

A iniciativa, liderada pela Universidade Federal de Santa Catarina, cultiva espécies sob risco e depois faz a reintrodução no estado selvagem, oferecendo assim um reforço genético para que essas populações de fungos consigam se recuperar.

O processo não é tão simples como o das plantas, pois os fungos precisam sempre de um hospedeiro.

Cátia Canteiro revelou que essa é justamente a característica que mais admira nesses seres: o fato de deixarem evidente a conexão que une as várias formas de vida e nutre o ambiente onde elas vivem. 

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News

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