A convite da seção ‘Favoritos’, a executiva e escritora Fernanda Cerávolo indica cinco livros que apresentam complexidades e encantamentos do Japão
A literatura japonesa é vibrante no Brasil. Aventurar-se em suas páginas, além de prazeroso, é uma viagem ao epicentro de alguns dos episódios mais brutais do século 20, com balas, foguetes e bombas que, até hoje, arremessam seus estilhaços na nossa direção.
Em 1917, foi criada, no Oriente, uma empresa chamada Kaigai Kōgyō, a Kaikō, que monopolizou a emigração japonesa. A estratégia utilizada para convencer a população a cruzar o mundo rumo a destinos como o Brasil e o Peru foi o aliciamento. Ou seja, a mentira. O negócio da “disruptiva” Kaikō era tráfico de gente.
Algumas décadas depois, em 1942, os americanos criaram campos de concentração onde mais de 120 mil japoneses e nipo-americanos, a maioria cidadãos do país, foram encarcerados. Os campos foram uma resposta ao ataque à base naval de Pearl Harbor pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. E, em 1945, os mesmos americanos lançaram duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki para forçar a rendição dos japoneses na guerra.
Eu não sabia de nada disso enquanto crescia livre no interior de São Paulo na companhia de filhos e netos de imigrantes nipônicos. Desde criança, eu sonhava em conhecer aquele lugar distante e misterioso onde os ancestrais dos meus amigos tinham nascido.
Em 2019, realizei o sonho e me mudei para o Japão. Vivi em Tóquio por dois anos. Descobri que o país é difícil de decifrar, especialmente para uma forasteira. E, para me aventurar nele, além de manter as antenas sempre em pé, recorri aos livros. Com eles, entrei nas casas, espiei o cotidiano e desfrutei da realidade japonesa com menos filtros. Escolhi trazer nesta lista livros que iluminam becos do Japão — sem entregar de bandeja suas complexidades e seus encantamentos — e que foram companheiros inseparáveis na minha jornada.
Peitos e ovos
Mieko Kawakami (trad. Eunice Suenaga, Intrínseca, 2023)
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Se você quer experimentar a atmosfera demi-noir de duas megalópoles japonesas e se aprofundar na vida de personagens submetidos a algumas das condições mais cruéis do Japão contemporâneo, enfie os olhos nos “Peitos e ovos” de Kawakami. A romancista é precisa com as palavras, uma qualidade que chamou minha atenção diante da atitude resignada que observei em muitas mulheres na cidade de Tóquio.
“Peitos e ovos” é um romance sobre a juventude e a vida adulta de três mulheres de origem pobre, da mesma família, orbitando entre as cidades de Osaka e Tóquio no final do século 20 e início do 21. As personagens de Kawakami vivem dramas como fugir de um pai violento, ter dificuldade em encontrar um parceiro depois dos 25 anos e não conseguir gerar filhos por métodos convencionais.
Hiroshima
John Hersey (trad. Hildegard Fiest, Companhia das Letras, 2002)
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O livro de John Hersey é uma das obras literárias de não ficção mais importantes do século 20. No posfácio da edição brasileira, publicada pela Companhia das Letras, o jornalista Matinas Suzuki Jr. escreve que “nenhuma outra reportagem da história do jornalismo teve a repercussão de ‘Hiroshima’”.
O livro foi escrito a partir de relatos de sobreviventes da bomba atômica Little Boy, lançada pelos americanos sobre a cidade em 6 de agosto de 1945. A obra nos coloca lado a lado com os sobreviventes dos ataques nos instantes após a explosão, quando mal sabiam a dimensão da tragédia e o que exatamente os tinha atingido. Sem essa transmissão da história, talvez as pessoas fora do Japão jamais tivessem entendido o horror que as bombas provocaram.
Querida konbini
Sayaka Murata (trad. Rita Kohl, Estação Liberdade, 2022)
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Keiko Furukura, a protagonista narradora de “Querida konbini”, é uma mulher deslocada, falsamente passiva e atrapalhada, muito consciente do impacto do entorno na forma protocolar e previsível como consegue (ou pode) tocar sua vida — mesmo numa megalópole incansável como Tóquio.
As konbinis do título são lojas de conveniência tão vitais para os japoneses quanto a água que bebem. Com humor e escárnio, Sayaka Murata produz uma prosa oxigenada por detalhes mundanos que revelam com profundidade os pormenores das pessoas e dos costumes japoneses.
Tóquio proibida: Uma viagem perigosa pelo submundo japonês
Jake Adelstein (trad. Donaldson M Garschagen, Companhia das Letras, 2011)
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Desmantelar grupos como a Yakuza hoje exige novas técnicas de combate, mas os pilares estruturantes da máfia seguem os mesmos: relação corrupta com o Estado, pacto do silêncio (quase impossível na era da supremacia sociodigital), controle e influência na criação de negócios legítimos para lavagem de dinheiro e estrutura familiar.
“Tóquio proibida”, obra do jornalismo literário que une memória, biografia e crime, revela com profundidade o modus operandi da máfia contemporânea. Foi escrita por Jake Adelstein, o primeiro jornalista estrangeiro a ser aceito na redação de um grande jornal japonês, a partir de sua experiência cobrindo as ações da Yakuza entre 1993 e 2005.
Cardiograma de gente viva
Patricia Yamasaki (Arte e Letra, 2026)
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Patricia Yamasaki é descendente de japoneses, nasceu no Brasil e vive em Curitiba. Sua poesia tem o frescor de estreia e traz a carga da sua multiculturalidade latente. Além disso, o livro é anatômico: foi organizado numa espécie de investigação do funcionamento do coração. O texto é acompanhado pelas ilustrações de Adriana Komura, que merecem ser vistas por muita gente.
Um poema da autora:
entre nós
“meu sonho de amor
nunca foi dar as mãos em público
sempre sonhei do avesso
avulsa e particular
que me carregue dentro
que não escolha ângulo ou dia
que saiba de cor minha anatomia
que me conte cada marca
sonho um amor desnudo
sem ensaio sem aplauso.”
Fernanda Cerávolo é escritora e fundadora do Lab For Girls, dedicado a ampliar o protagonismo de meninas e mulheres. Foi executiva em empresas de tecnologia como Google, YouTube e Pinterest, no Brasil e no exterior. Em 2019 e 2020, viveu em Tóquio, experiência que conduz seu romance de estreia, “Nômades num barco de origami” (Quelônio, 2026).