Experiência brasileira ensinou que enfraquecer um presidente autoritário não leva automaticamente à recuperação das instituições
A derrota republicana nas eleições legislativas de 3 de novembro de 2026, com a conquista democrata da Câmara, do Senado e do governo de estados importantes, impõe obstáculos ao projeto de Donald Trump de desmonte do Estado Democrático de Direito. Não determina, porém, seu encerramento.
O segundo mandato de Trump tornou concreta a associação entre erosão democrática e desmonte do Estado, começando pelo governo federal. A demissão em massa de servidores federais, o fechamento de agências e a desarticulação de estruturas responsáveis pela execução de políticas públicas ultrapassaram o terreno das promessas do famigerado Projeto 2025.
Segundo o Government Accountability Office (Escritório de Prestação de Contas do Governo), órgão de controle do Congresso, o contingente de trabalhadores de 22 grandes agências federais diminuiu em quase 256 mil pessoas entre dezembro de 2024 e janeiro de 2026. Esses números não demonstram, isoladamente, os efeitos de cada corte, mas dimensionam a velocidade e a extensão do desmonte promovido pelo governo Trump em seu segundo mandato.
Assim como no Brasil, interpretar essas mudanças apenas como redução de despesas obscurece sua dimensão política. O desmantelamento pode ocorrer pela eliminação de estruturas, mas também pela retirada dos recursos humanos, financeiros e organizacionais necessários ao cumprimento de suas atribuições. Uma política pode continuar existindo formalmente e, ainda assim, tornar-se incapaz de produzir resultados. Quando essa incapacidade é apresentada como prova de incompetência do setor público, estabelece-se um círculo perverso: enfraquece-se o Estado e utiliza-se sua deterioração para justificar intervenções contra ele.
Nos governos populistas autoritários, a aversão declarada à maquina pública convive com o uso intensivo de seus instrumentos: enfraquecem-se funções de proteção, regulação e fiscalização, enquanto se fortalece a capacidade de controlar, punir e impor prioridades presidenciais. Sob Trump, essa lógica alcança a política externa: a retirada dos EUA da OMS (Organização Mundial da Saúde), a perseguição a membros do Tribunal Penal Internacional e a extinção da USaid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) comprometem a cooperação e a assistência internacional.
Derrotar eleitoralmente uma liderança autoritária não equivale a desfazer seu legado administrativo
Como Jair Bolsonaro, Trump usa redes sociais, desqualifica adversários e produz controvérsias para mobilizar apoiadores, dominar a atenção pública e esquivar-se da responsabilidade pelos resultados de seu governo e suas decisões. Enquanto os confrontos presidenciais concentram o debate, as mudanças administrativas transformam o Estado e dificultam o acesso a direitos: é o “passar a boiada” brasileiro e o “flood the zone” (inundar a área) americano.
A derrota eleitoral de novembro modifica as condições políticas dessa dinâmica. Com o controle democrata das duas Casas, Trump enfrentará resistência legislativa e fiscalização mais intensas. A nova composição, que assumirá em janeiro de 2027, poderá ampliar investigações, disputar prioridades orçamentárias e, no Senado, bloquear indicações sujeitas à sua confirmação.
Entretanto, o resultado eleitoral não retira imediatamente os instrumentos administrativos que Trump tem usado e dos quais tem abusado. Tampouco recompõe as capacidades estatais perdidas desde 2025 e o clima de medo disseminado nas agências federais e até nas universidades. Entre a contenção política do presidente e a recuperação institucional do Estado existe uma distância considerável.
Nesse cenário, uma possibilidade é a combinação de negociações pontuais com maior concentração de esforços nos instrumentos do Executivo. Diante de dificuldades para aprovar leis, Trump poderá recorrer ainda mais intensamente a ordens executivas, decisões regulatórias e mudanças na implementação de programas, dentro de um espaço continuamente disputado nos tribunais e no Congresso. A derrota nas urnas restringe a margem de ação, mas não elimina a capacidade de produzir efeitos destrutivos por meio da administração cotidiana.
Outra possibilidade é o aprofundamento do confronto com o Congresso. No limite, a Câmara tem a prerrogativa de iniciar processos de impeachment contra o presidente e o Senado, de julgá-los. Da parte republicana, a fiscalização parlamentar poderá ser apresentada como sabotagem, e os obstáculos à agenda presidencial, como justificativa para mobilizar a base contra as instituições de controle. Disputas orçamentárias também poderão produzir impasses e ameaças de paralisação administrativa, na forma do conhecido “government shutdown” (paralisação do governo).
Nada disso constitui consequência inevitável do resultado eleitoral: a trajetória dependerá da coesão republicana, das estratégias democratas, das decisões judiciais e dos custos políticos de cada confronto. O ponto central é que uma derrota legislativa pode estimular tanto acomodações quanto tentativas de contornar os novos limites.
O tempo e a aprendizagem institucional ajudam a explicar essa incerteza. No Brasil, o governo Bolsonaro aprendeu progressivamente a utilizar instrumentos administrativos para enfraquecer políticas públicas, constranger organizações e perseguir servidores. Trump iniciou seu segundo mandato com a experiência do primeiro e com instrumentos preparados para intervir sobre a burocracia. Depois das eleições legislativas, haverá ainda um intervalo até a posse do novo Congresso. Essa transição poderá estimular a aceleração de decisões em um processo de passar a boiada antes da perda de controle do Legislativo.
A resistência enfrenta um desafio igualmente importante. Diferentemente do observado no Brasil, a sociedade civil americana esteve menos mobilizada para responder prontamente aos abusos de Trump. Organizações sociais, universidades, sindicatos e governos subnacionais podem ampliar os custos do autoritarismo, mas também sofrem os efeitos da sucessão de crises, da redução de recursos e do clima de perseguição. A vitória democrata abre oportunidades para articular essas resistências à fiscalização parlamentar. Seu alcance dependerá da capacidade de converter a rejeição de Trump nas urnas em proteção efetiva às instituições e em condições concretas para o funcionamento das políticas públicas.
O maior erro que a fortalecida oposição democrata pode cometer está em interpretar a vitória de 3 de novembro como sinal de permanente vitalidade da democracia americana. O eleitorado derrotou Trump apesar de todos os seus esforços para questionar o sistema de votação, restringir o acesso às urnas e enfraquecer direitos. Não foi a democracia que demonstrou sua vitalidade, foi o povo que se mobilizou contra a alta no custo de vida e, quem sabe, contra o declínio democrático.
Diante desse cenário, que lições podem ser depreendidas da experiência brasileira? Por um lado, os americanos parecem ter se inspirado no potencial da mobilização popular por meio do voto. Mas a outra lição brasileira é que derrotar eleitoralmente uma liderança autoritária não equivale a desfazer seu legado administrativo. Reconstruir equipes, recuperar conhecimentos, restabelecer confiança e reorganizar redes de implementação exige tempo e continuidade política. Nos Estados Unidos, esse desafio torna-se ainda mais complexo porque o presidente responsável pelo desmonte permanecerá no comando do Executivo por mais dois anos. O novo Congresso poderá impor limites e expor responsabilidades, mas terá de atuar sobre uma administração já profundamente transformada, traumatizada e sob uma Presidência ainda capaz de promover novos desmontes.
O Estado é indispensável à proteção de direitos, à redução das desigualdades e à preservação das condições materiais da democracia. Seu enfraquecimento compromete tanto a prestação de serviços quanto a possibilidade de submeter o exercício do poder a regras e controles. A derrota de Trump nas eleições de meio de mandato representa uma oportunidade de contenção do desmonte, mas a efetividade desse combate permanece em disputa. O futuro dependerá de limitar novas investidas e preservar as capacidades necessárias à reconstrução do Estado. O projeto de Trump deve ser compreendido nessa chave: uma transformação do Estado que reduz obstáculos ao poder presidencial e que pode continuar avançando mesmo depois de uma derrota nas urnas.
Michelle Fernandez é cientista política, professora e pesquisadora do Ipol/UnB (Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília). Coordena o Nepos (Núcleo de Estudos sobre Estado, Burocracia e Políticas de Saúde). É diretora de Difusão Científica da ABCP (Associação Brasileira de Ciência Política) e membro do INCT QualiGov.
Michelle Morais é professora na Universidade de Oklahoma e pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos. É organizadora, com Alexandre Gomide, do livro “Public Policy in Democratic Backsliding: How Illiberal Populists Engage with the Policy process” (Palgrave, 2024).